Há algum tempo eu estava para escrever algo sobre um problema grave no seio do Islam. É sempre complicado falar sobre as nossas próprias feridas, sobre as brigas em casa, mas o assassinato de Bin Laden pelos americanos abriu a possibilidade. Nesse exato ...momento, assisto à vibração dos americanos, em frente à Casa Branca, pela morte de Bin Laden. O presidente Obama acaba de anunciar o feito, em tom de vingança, e a reação da população (ao menos mostrada na TV) é de euforia, como num evento esportivo. O ex-presidente Bill Clinton disse que a morte de Bin Laden é profundamente importante e uma forma de fazer justiça. Por sua vez, o primeiro-ministro britânico acabou de divulgar uma nota afirmando que a morte de Bin Laden trará mais tranqüilidade ao mundo. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou que o feito está inserido na luta daquelas nações que combatem o terror e defendem a democracia (com certeza, não devia estar se referindo a Israel). Primeiramente, é interessante observar como uma figura conseguiu construir tal identificação com o mal, transformando-se na sua própria personificação (ou como seus inimigos construíram essa identificação sobre ele). Porém, esse tema demandaria outro texto, talvez uma tese, e não deve ser tratado aqui. Sinceramente, não me encanta a reação dos americanos e de seus parceiros em relação à morte de Bin Laden. É uma reação tão irracional e egoísta quanto a dos extremistas islâmicos. Remete ao confronto de fundamentalismos denunciado por Tariq Ali. Não serei hipócrita, não vou dizer que a morte de Bin Laden também não soa para mim como um alívio (embora por motivos bem diferentes daqueles dos americanos), mas os EUA não tem o direito de fazer sua justiça com as próprias mãos à revelia de tudo e de todos (esse assassinato de Bin Laden, por exemplo, se deu no coração do território paquistanês, ferindo sua soberania, ainda que as autoridades do Paquistão tenham sido "avisadas", como foi divulgado). Tentando fazer uma leitura retrospectiva, apesar da proximidade quase imediata dos fatos, não consigo ver mocinhos e bandidos no confronto EUA x Al Qaeda. Os ataques às Torres Gêmeas foram violentos, mas a ação americana sempre foi parcial e desproporcional. Parcial porque, desde a 1ª Guera Mundial, nenhum outro país do mundo enviou seu exército a tantos lugares e causou tanto sofrimento como os EUA. Desproporcional porque apesar do espetáculo pirotécnico que foi a implosão das Torres Gêmeas, nada se compara com os anos de guerra e as milhares de mortes impostas ao povo do Iraque e do Afeganistão. É lamentável que a experiência dolorosa do atentado em Nova Iorque não tenha provocado nos americanos uma reflexão sobre o sofirmento causado pelos EUA mundo afora. De qualquer forma, o motivo central deste texto não é Bin Laden nem a impáfia americana. O fato é que foi sempre constrangedor assistir todos esses anos à retórica violenta e fanática de Bin Laden e de seus simpatizantes, inclusive aqui no Brasil, deturpando e manchando a imagem do Islam enquanto religião e civilização, numa confusão de conceitos, identidades e expectativas que só existe em suas cabeças. São pessoas despreparadas para o diálogo e, portanto, para atuar no campo religioso, mas que infelizmente encontram espaço e até mesmo recursos para difundir visões que, na verdade, são exteriores à realidade brasileira e não respondem às demandas dos muçulmanos brasileiros, nem propõem uma participação construtiva na sociedade brasileira. É lamentável, como muçulmano, ver a tradição religiosa e civilizatória do Islam ser reduzida a um conjunto de repetições mecânicas de atitudes e à memorização de citações decoradas e irrefletidas, sem nenhuma relação com vida real das pessoas, nem com suas necessidades espirituais. Urge que os muçulmanos brasileiros proponham pensar o Islam a partir de suas próprias demandas e de sua própria matriz cultural. Numa palavra, a partir de sua realidade. Para essa tarefa também estão convocados os árabes imigrantes e os filhos de árabes no Brasil, bem como outros grupos de estrangeiros (africanos, persas, etc.). Porém, deve ficar claro, desde o começo, que o foco não é viabilizar uma religiosidade de gueto, mas dar vazão ao espírito universal do Islam, construindo um diálogo com outros grupos religiosos e resgatando e aprofundando as raízes no Brasil. Bin Laden e Obama em nada colaboram com esse projeto. Ver mais
Por: Roger Elias
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