sábado, 7 de maio de 2011

A morte de Osama bin Laden gera indagações e suspeitas. Se o chefe dessa poderosa base planetária de terror, a Al-Qaeda, foi localizado nos mínimos detalhes e estava desarmado no quarto de dormir, por que não foi capturado vivo e içado ao imenso helicóptero que pairou sobre sua casa?

Preso, seria levado a um tribunal internacional e acusado publicamente por seus crimes. Teríamos, então, uma exposição do horror a servir de exemplo para jamais repetir-se.

No século 20, ao julgar os chefes da Alemanha nazista, o Tribunal de Nuremberg fez o genocídio europeu aparecer na profundidade da sua perversão. Em 1945, os russos, norte-americanos e ingleses (vencedores da II Guerra Mundial) poderiam ter eliminado os chefes nazistas e seus asseclas, mas preferiram levá-los à execração da História, antes de exibir suas cabeças numa bandeja.

Em 1960, o grupo do serviço secreto de Israel que localizou Adolf Eichmann, num subúrbio de Buenos Aires, poderia tê-lo eliminado ali mesmo e o mundo entenderia o significado da execução do homem que chefiou o “programa” de Hitler para varrer a “escória judaica da face da Terra”. O mais difícil foi transportar o criminoso, incógnito, a Israel. Era fundamental julgá-lo, porém, dando-lhe até o direito de defesa, para que seu próprio depoimento emoldurasse o crime repugnante e abjeto.

Agora, se capturado vivo, Bin Laden poderia ser julgado até nos EUA, onde não lhe faltam acusações após os atentados de 11 de setembro de 2001. Ele foi morto, porém. Ou, se preferirem, assassinado, junto com uma de suas mulheres. O mundo já não saberá como formou a Al-Qaeda, nem quem o incitou a armá-la com a fanática fúria do fundamentalismo islâmico.

Como nação, os EUA não poderiam se expor a julgá-lo em público. Ele seria um réu perigoso e explosivo. Contaria que a CIA e o Pentágono instruíram, formaram e armaram os grupos de terror com que ele combateu os soviéticos no Afeganistão, nos anos 1980. Assim, ao ser educado pela CIA e conhecer suas artimanhas, ele pôde fugir da própria CIA ao longo de 15 anos, antes ainda dos atentados de 2001.

Com Osama morto, nos privamos de saber de suas antigas intimidades com os EUA, de quando recebia armas sofisticadas do Pentágono. E de como a CIA armou e treinou os fanáticos do Talibã, no Afeganistão, e os ensinou, no poder, a destruir tudo, até monumentos milenares encravados na montanha.

Com Osama morto, não saberemos detalhes de como a família Bin Laden (seus meios-irmãos e primos) mantinha sociedade com George Bush, filho, e o ex-vice-presidente Dick Cheney em milionários negócios de petróleo, mundo afora.
Nem saberemos por que o garoto mimado rebelou-se contra os que o mimavam. Jamais saberemos se, como se diz, após a expulsão soviética do Afeganistão, Osama tentou obter apoio da CIA para derrubar a ditadura da família Saud na Arábia Saudita. E que, como os EUA preferiram seguir com o velho aliado (mesmo corrupto e sanguinário), Osama rompeu com seus protetores em Washington. Nessa época, ele já não era megamilionário e perdera tudo ao ter os olhos postos na derrubada dos Saud na Arábia de igual nome.

Nessa nebulosa, ele foi morto. Na demência do terror islâmico há, na certa, vários Osamas, como na literatura da Inglaterra do século 16 houve vários Shakespeares, diferentes apenas em nuances. Mais difícil, porém, é distinguir bombas do que poemas e, nas ciladas da História, resta indagar, agora, com que pretextos os EUA criarão novos Afeganistãos e novos Iraques.*Jornalista e escritor

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