SOLIDÃO,ESSA DOENÇA
Numa clínica de dor em Madri,na entrveista de cinco pacientes novos,o coordenador explicou que precisava avaliar o nível de sofrimento do gripo,e pediu que cada um classificasse sua dor,de 1 a 10,sendo 10 a maior dor imaginável.O primeiro nçao deixou por menos:cravou um dez com convicção.O segundo assumiu o mesmo escore,talvez temendo merecer menos atenção.O terceiro paciente,com a imagem da dor estampada,afirmou que na sua escala de sofrimento,17 ficaria bem.O quarto,impressionado com o martírio de seus pares,admitiu que 9 seria provavelmente mais justo.
O último paciente,um pouco envergonhado,referiu que sua graduação era 1.Quando omédico questionou sua presença nessa clínica-já que ele não deveria sentir dor-,ele afirmou:"eu tenho câncer como todos aqui,e como todos aqui,também vou morrer.Acontece que não tenho ninguém para cuidar de mim.Eu sei que isso não tem escore,mas podem acreditar que esta solidão é a pior dor."
O Código Internacional de Doenças(CID),por pura distração,ainda não catalogou a solidão como doença,mas ela é,sem dúvida,a grande enfermidade da sociedade contemporânea.A promiscuidade afetiva da vida moderna e a fantástica capacidade de interação instantânea contribui para a falsa sensação de que não estamos sozinhos.porém,quando uma circunstância especial como a doença restringe a nossa capacidade de comunicação,percebemos que a ilha da fraternidade que construímos com milhões de mensagens e torpedos afetuosos é pura fantasia.
O paciente,fragilizado pela ameaça de morte,sempre buscou na palavra do médico mais do que a promessa de ajuda.Ele quer um compromisso de parceria,admitindo que não ter com quem dividir sofrimento,só faz multiplicá-lo.
Quem trabalha com transplante,por exemplo,descobre no convívio com o desespero levado ao limite,que a disposição para lutar pela vida de pende de uma equação simples:amor para dar/amor para receber.
Os riscos do afeto ultrapassam todas as estimativas de sobrevida porque lhes encanta viver.Por outro lado,é triste flagrar o desinteresse com que os mal amados encaram a perpectiva de batalhar por uma vida que lhes negou a generosa cumplicidade do amor compartilhado.
Certo estava quem escreveu que a maior tragédia do homem é o que morre dentro dele,enquanto ele ainda está vivo.
por José J. Camargo
professor universitário e membro titular da Academia
Nacional de Medicina
Numa clínica de dor em Madri,na entrveista de cinco pacientes novos,o coordenador explicou que precisava avaliar o nível de sofrimento do gripo,e pediu que cada um classificasse sua dor,de 1 a 10,sendo 10 a maior dor imaginável.O primeiro nçao deixou por menos:cravou um dez com convicção.O segundo assumiu o mesmo escore,talvez temendo merecer menos atenção.O terceiro paciente,com a imagem da dor estampada,afirmou que na sua escala de sofrimento,17 ficaria bem.O quarto,impressionado com o martírio de seus pares,admitiu que 9 seria provavelmente mais justo.
O último paciente,um pouco envergonhado,referiu que sua graduação era 1.Quando omédico questionou sua presença nessa clínica-já que ele não deveria sentir dor-,ele afirmou:"eu tenho câncer como todos aqui,e como todos aqui,também vou morrer.Acontece que não tenho ninguém para cuidar de mim.Eu sei que isso não tem escore,mas podem acreditar que esta solidão é a pior dor."
O Código Internacional de Doenças(CID),por pura distração,ainda não catalogou a solidão como doença,mas ela é,sem dúvida,a grande enfermidade da sociedade contemporânea.A promiscuidade afetiva da vida moderna e a fantástica capacidade de interação instantânea contribui para a falsa sensação de que não estamos sozinhos.porém,quando uma circunstância especial como a doença restringe a nossa capacidade de comunicação,percebemos que a ilha da fraternidade que construímos com milhões de mensagens e torpedos afetuosos é pura fantasia.
O paciente,fragilizado pela ameaça de morte,sempre buscou na palavra do médico mais do que a promessa de ajuda.Ele quer um compromisso de parceria,admitindo que não ter com quem dividir sofrimento,só faz multiplicá-lo.
Quem trabalha com transplante,por exemplo,descobre no convívio com o desespero levado ao limite,que a disposição para lutar pela vida de pende de uma equação simples:amor para dar/amor para receber.
Os riscos do afeto ultrapassam todas as estimativas de sobrevida porque lhes encanta viver.Por outro lado,é triste flagrar o desinteresse com que os mal amados encaram a perpectiva de batalhar por uma vida que lhes negou a generosa cumplicidade do amor compartilhado.
Certo estava quem escreveu que a maior tragédia do homem é o que morre dentro dele,enquanto ele ainda está vivo.
por José J. Camargo
professor universitário e membro titular da Academia
Nacional de Medicina
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